Montevideo,
Uruguai
Era
apenas meia-noite mas o bar já estava fechando, o que me deixou meio
frustrado. Eu tinha esperado tanto por aquela oportunidade de ficar a
sós com ela, longe do hostel – e nós nem tínhamos terminado
nosso vinho, que eu paguei com o pouco dinheiro que me restava.
- A gente pode ir pra praia, o que você acha?
- Não é perigoso? - perguntei meio preocupado.
- Acho que não, vem!
Eu
falava espanhol há um mês, e ela era alemã. Ainda sim, nós não
tínhamos problemas para nos entender.
Caminhamos
pouco mais de cinco minutos e chegamos na prainha do Rio de La Plata,
que separa Argentina e Uruguai. Na verdade, ainda hoje eu não sei se
aquilo era o rio ou o mar – talvez ambos.
A
lua cheia brilhava no alto do céu, não menos que aquele par de
olhos azuis e aquele cabelo dourado. Jamais tinha visto uma moça tão
linda. Jamais tinha visto um anjo como ela (cliché, eu sei, mas é a
pura verdade).
As
ondas quebravam e alcançavam a areia atrás da gente com aquele
barulhinho gostoso, que mais parecia música para meus ouvidos. A
gente se beijava até perder o fôlego e, literalmente, precisar
recuperar o ar. Numa dessas pausas, eu disse:
- Ei, eu estudei num colégio alemão até a terceira série do fundamental!
- Verdade?
- Sim! Até lembro umas palavras, ó: blau, rot, das auto, ich spiele...
- Muito bem!
- Eu também lembro uma musiquinha de natal...
Cantei
a música todo orgulhoso, mas ela não teve a reação que eu
esperava – pelo contrário, ela ficou triste.
- O que houve? - perguntei.
- Nada, é só que essa música me faz lembrar da minha família, e do meu pai...
Ela
morava longe de casa há algum tempo. Primeiro passou um longo tempo
em Buenos Aires e Mendoza, Argentina, para depois passar a viver em
Montevideo, Uruguai, onde nos encontramos.
- … ele nunca disse que me amava – continuou, olhos marejados e voz embargada – e teve aquela vez no natal...
Husum,
Alemanha, alguns anos antes.
A
neve caía braquinha em flocos pequenos e abundantes. Ventava muito e
as nuvens carregadas não podiam ser vistas no céu escuro, mas era
sabido que estavam lá porque não se podia ver a lua nem tampouco as
estrelas.
A
lenha ardia em chamas, o que mantinha a sala aquecida. O cheiro de
biscoitos caseiros vindo da cozinha estimulava cada vez mais o
apetite das crianças, que ainda deveriam esperar pela ceia antes de
poder comer a sobremesa.
- Mamãe, por que a gente não pode comer de uma vez? Estou com fome!
- Calma filha, você sabe que devemos esperar pelo seu pai!
- Mas ele não virá mamãe. Ele nunca vem...
Ao
dizer estas últimas palavras, a mocinha se juntou ao irmão ao pé
da árvore de natal que piscava colorida. Eles ainda não podiam
abrir os presentes, mas brincavam de tentar adivinhar o conteúdo dos
pacotes apalpando e chacoalhando cada um deles – que não eram
muitos, é verdade.
As
horas foram passando e, como o pai não dava sinal de vida, a mãe
resolveu começar a ceia sem a sua presença, mais uma vez.
- Ele deve ter tido algum problema com o carro, com toda essa neve – disse, para tentar consolar as crianças que já esperavam pela ausência do pai, de novo.
Pai
e mãe eram separados há algum tempo, e as crianças raramente viam
o pai – especialmente em datas comemorativas.
Mas
aquele ano foi diferente.
Depois
da ceia, abreviada pela fome devido ao atraso na refeição e pela
vontade de comer a sobremesa, as crianças nem mesmo esperaram que a
mãe buscasse os biscoitos na cozinha – saíram em disparada em
direção ao forno.
- Cuidado meninos, vocês podem se machucar!
- Puxa mãe, esse ano eles estão uma delícia – disseram em uníssono a mocinha e seu irmão.
Foi
quando ouviram a porta da frente fechar, fazendo um tremendo
estrondo. Finalmente o pai tinha chegado. As crianças não foram
recepcioná-lo, porém. Já tinham visto aquele filme.
- Cadê minha comida, mulher? - gritou o pai, as palavras escapando pastosas de sua boca.
Ele
se aproximou da ex-esposa para dar-lhe um beijo, prontamente
rejeitado. Ao sentir seu hálito forte, ela disse:
- Sai, você está bêbado.
- Vai botar minha comida no prato que eu tô com fome!
- Vá você, já não sou mais sua escrava!
- Quem precisa de você?!
Ao
dizer essas palavras gritando, o pai golpeou a mãe que caiu inerte
no chão, levando consigo a árvore de natal e seu brilho.
Robson Ribeiro
Robson Ribeiro
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