Projeto antigo, este blog visa contar algumas estórias que tenho ouvido de gente que encontrei mundo afora. Quero frisar, porém, que estas não são verdadeiras - são apenas reconstruções feitas à partir de minhas lembranças, adaptadas e recriadas livremente para dar movimento e ilustrar melhor cada situação.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

#01


 Montevideo, Uruguai

Era apenas meia-noite mas o bar já estava fechando, o que me deixou meio frustrado. Eu tinha esperado tanto por aquela oportunidade de ficar a sós com ela, longe do hostel – e nós nem tínhamos terminado nosso vinho, que eu paguei com o pouco dinheiro que me restava.
  • A gente pode ir pra praia, o que você acha?
  • Não é perigoso? - perguntei meio preocupado.
  • Acho que não, vem!
Eu falava espanhol há um mês, e ela era alemã. Ainda sim, nós não tínhamos problemas para nos entender.
Caminhamos pouco mais de cinco minutos e chegamos na prainha do Rio de La Plata, que separa Argentina e Uruguai. Na verdade, ainda hoje eu não sei se aquilo era o rio ou o mar – talvez ambos.
A lua cheia brilhava no alto do céu, não menos que aquele par de olhos azuis e aquele cabelo dourado. Jamais tinha visto uma moça tão linda. Jamais tinha visto um anjo como ela (cliché, eu sei, mas é a pura verdade).
As ondas quebravam e alcançavam a areia atrás da gente com aquele barulhinho gostoso, que mais parecia música para meus ouvidos. A gente se beijava até perder o fôlego e, literalmente, precisar recuperar o ar. Numa dessas pausas, eu disse:
  • Ei, eu estudei num colégio alemão até a terceira série do fundamental!
  • Verdade?
  • Sim! Até lembro umas palavras, ó: blau, rot, das auto, ich spiele...
  • Muito bem!
  • Eu também lembro uma musiquinha de natal...
Cantei a música todo orgulhoso, mas ela não teve a reação que eu esperava – pelo contrário, ela ficou triste.
  • O que houve? - perguntei.
  • Nada, é só que essa música me faz lembrar da minha família, e do meu pai...
Ela morava longe de casa há algum tempo. Primeiro passou um longo tempo em Buenos Aires e Mendoza, Argentina, para depois passar a viver em Montevideo, Uruguai, onde nos encontramos.
  • ele nunca disse que me amava – continuou, olhos marejados e voz embargada – e teve aquela vez no natal...

Husum, Alemanha, alguns anos antes.

A neve caía braquinha em flocos pequenos e abundantes. Ventava muito e as nuvens carregadas não podiam ser vistas no céu escuro, mas era sabido que estavam lá porque não se podia ver a lua nem tampouco as estrelas.
A lenha ardia em chamas, o que mantinha a sala aquecida. O cheiro de biscoitos caseiros vindo da cozinha estimulava cada vez mais o apetite das crianças, que ainda deveriam esperar pela ceia antes de poder comer a sobremesa.
  • Mamãe, por que a gente não pode comer de uma vez? Estou com fome!
  • Calma filha, você sabe que devemos esperar pelo seu pai!
  • Mas ele não virá mamãe. Ele nunca vem...
Ao dizer estas últimas palavras, a mocinha se juntou ao irmão ao pé da árvore de natal que piscava colorida. Eles ainda não podiam abrir os presentes, mas brincavam de tentar adivinhar o conteúdo dos pacotes apalpando e chacoalhando cada um deles – que não eram muitos, é verdade.
As horas foram passando e, como o pai não dava sinal de vida, a mãe resolveu começar a ceia sem a sua presença, mais uma vez.
  • Ele deve ter tido algum problema com o carro, com toda essa neve – disse, para tentar consolar as crianças que já esperavam pela ausência do pai, de novo.
Pai e mãe eram separados há algum tempo, e as crianças raramente viam o pai – especialmente em datas comemorativas.
Mas aquele ano foi diferente.
Depois da ceia, abreviada pela fome devido ao atraso na refeição e pela vontade de comer a sobremesa, as crianças nem mesmo esperaram que a mãe buscasse os biscoitos na cozinha – saíram em disparada em direção ao forno.
  • Cuidado meninos, vocês podem se machucar!
  • Puxa mãe, esse ano eles estão uma delícia – disseram em uníssono a mocinha e seu irmão.
Foi quando ouviram a porta da frente fechar, fazendo um tremendo estrondo. Finalmente o pai tinha chegado. As crianças não foram recepcioná-lo, porém. Já tinham visto aquele filme.
  • Cadê minha comida, mulher? - gritou o pai, as palavras escapando pastosas de sua boca.
Ele se aproximou da ex-esposa para dar-lhe um beijo, prontamente rejeitado. Ao sentir seu hálito forte, ela disse:
  • Sai, você está bêbado.
  • Vai botar minha comida no prato que eu tô com fome!
  • Vá você, já não sou mais sua escrava!
  • Quem precisa de você?!
Ao dizer essas palavras gritando, o pai golpeou a mãe que caiu inerte no chão, levando consigo a árvore de natal e seu brilho.



Robson Ribeiro